3 - A HISTÓRIA DO BAIRRO
3.1. Das Fazendas e Chácaras à Fábrica Bangu e Quartéis
Tudo teve início em 1673, quando as terras que vão desde Deodoro até o começo de Santa Cruz, tendo como ‘muros’ os maciços do Gericinó e da Pedra Branca, faziam parte da área pertencente à Paróquia de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande, onde viviam padres jesuítas. Devemos ter em mente que nessa época a Igreja tinha um poder muito parecido com o que tem o Governo, possuía serviçais e terras à vontade, praticamente o Estado e a Igreja, eram os únicos poderes ‘constituídos’ existentes.
Mas, com o passar do tempo, a Coroa Portuguesa sentia que era preciso tirar lucro das terras onde hoje se situam os bairros da Zona Oeste. Como já não havia mais tanta harmonia entre a Igreja e o Estado, principalmente com a extinção da Companhia de Jesus em 1759. Houve a necessidade de repartir as terras: primeiro em fazendas; e depois de fazendas em chácaras menores, para o cultivo de cana-de-açúcar, toda a produção de produtos derivados da cana-de-açúcar era exportada pelo Porto de Guaratiba, chegando lá em carros puxados por bois. O nosso bairro fazia parte de um conjunto de terras que ficava ‘espremida’ entre as fazendas de Realengo e a de Bangu, onde tempos mais tarde se passou a plantar café, já que o preço do açúcar estava ficando baixo demais e dando prejuízo à Coroa Portuguesa.
As fazendas foram então, divididas entre os herdeiros e posteriormente, vendidas ou ‘encampadas’ pelo governo para as Forças Armadas, pois havia a necessidade de construir quartéis para abrigar o Exército, e os locais mais ao centro da cidade, já estavam ocupados por outras Forças ou utilizadas para a especulação imobiliária, já naquela época, no fim do século XIX.
A fazenda de Bangu, e um bom naco da fazenda de Realengo passou a pertencer à Companhia Progresso Industrial do Brasil LTDA, que fundou onde hoje é o centro do bairro de Bangu, a Fábrica de Tecidos Bangu, que veio a dar origem ao bairro. A outra parte que vai da fazenda do Realengo até Deodoro, ficou com as forças Armadas, no meio deste ‘cabo de guerra’, entre a influência da Fábrica Bangu e dos quartéis, ficavam as terras que dariam origem ao bairro de Padre Miguel. A Fábrica Bangu começava desde a década inicial do século vinte uma política de doação de terras e construção de casinhas operárias, com isso muitos trabalhadores passaram a construir ou a morar em casas da Fábrica e morar perto do trabalho.
Desde 1878, com a fundação do ramal ferroviário de Santa Cruz, as pessoas já passavam a fazer seus casebres beirando a linha de trem, através de invasões de terras ‘permitidas’ pela Fábrica Bangu e pelo Exército, daí nasceram algumas das comunidades mais antigas da localidade. Tempos mais tarde a Fábrica, através do seu Serviço Pecuniário, começou a implantar infra-estrutura e construir apartamentos no local, de onde saíram os do IAPI.
3.2. Desenvolvimento do Bairro na História da Cidade e do País
Não haveria como falar do bairro de Padre Miguel, sem antes citar o início do processo de povoamento do local. O local onde fica a Zona Oeste, era de propriedade da Igreja até 1673. Padre Miguel, como a maioria dos bairros do subúrbio do Rio e da Zona Oeste, fazia parte, em tempos remotos (entre os séculos XVII e XVII) de uma região de chácaras e fazendas, oriundas da divisão das terras da Paróquia Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande. Essas chácaras e fazendas do local pertenciam as chamadas Terras Realengas ou Terras Renegadas, mais tarde foram denominadas de Sertões do Rio.
Aqui, na época das Fazendas de Bangu e de Realengo, houve nos séculos passados, o plantio de cana-de-açúcar e de café, acompanhando o desenvolvimento agrícola do país, com seus engenhos produzindo e exportando para a Europa pelo Porto de Guaratiba, a cana-de-açúcar e seus derivados (açúcar, rapadura, cachaça, etc) para enriquecer os fazendeiros e a Coroa Portuguesa, no início.
Algo que contribuiu para atrair pessoas para cá foi a descoberta do ouro nas Minas Gerais, uma vez que o Rio de Janeiro tinha importante papel na geopolítica da época, como porto principal e área administrativa nacional, muitos vinham na ilusão de enriquecer e acabavam sem ter como voltar para seu lugar de partida, outros vieram como carregadores, que transportavam as cargas até o porto, mas com o fim deste ciclo, acabaram por ficar em outras atividades, outros, também resolveram ficar por aqui, mas pela compra de terras, apostando no crescimento da região em termos agrícolas.
Posteriormente (do início até meados do século XIX e até a metade do século XX) o café ficou com o maior destaque, entre 1820 e 1850, já no Brasil Imperial, pois havia suplantado a cana-de-açúcar em seu valor de troca. As mesmas Fazendas de Bangu e do Realengo passaram a produzir café.
Produziam e exportavam seus produtos também para a Europa, mais tarde no final do século XIX, desta feita, já no Brasil Republicano, as terras da Fazenda de Realengo e de Bangu se encontravam nas mãos do Exército do Brasil e da Companhia Progresso Industrial do Brasil, por causa da baixa produtividade das terras das fazendas e para amenizar prejuízos os fazendeiros resolveram vendê-las ou doá-las.
Outro fato que contribuiu para a formação do contingente humano da região onde se situa o nosso bairro, foi o fato de que com o fim da renda das fazendas e a libertação dos escravos, muitos ficaram por aqui mesmo, pois enquanto as terras estavam sendo amealhadas por outros, estes invadiam nacos da ‘fronteira’ entre fazendas e construíam barracos e começavam a plantar para subsistência. É comum encontrar por aqui pessoas que descendem de ex-escravos que trabalharam nas lavouras da região.
Do começo até meados do século XX, aqui na região se plantava muito produto de monocultura como a cana-de-açúcar, o café e o algodão, mas para não perderem dinheiro, como ocorrera com as safras de 1929 e 1930, os donos das terras que agora pertenciam a fábrica de tecidos diversificaram a produção, plantando banana e laranja, além de leguminosas e verduras nas suas terras e essa área onde nos encontramos hoje passou a funcionar, grosso modo, como Teresópolis e alguns bairros da Baixada Fluminense, fornecendo frutas e legumes para a core-área local até o fim da Segunda Guerra Mundial, a região ficou famosa com os seus pomares de laranjas, o que rendeu um belo livro (Meu pé de Laranja Lima) ao escritor local José Mauro de Vasconcelos e uma novela homônima bastante atraente adaptada do livro, que contava a infância ingênua e segura do bairro de Bangu na época dos laranjais.
Como a guerra endividou os compradores das laranjas estas foram sendo deixadas para um segundo plano, ainda mais que todo o incentivo do Governo era no sentido da industrialização por substituição de importações, logicamente por não se ter de quem comprar máquinas e produtos industrializados, uma vez que a Europa e os Estados Unidos estavam participando da Segunda Guerra. Inclusive há boatos (nada comprovado) de que as primeiras grandes siderúrgicas brasileiras, ajudadas pelos Estados Unidos, foram trocadas pela entrada do Brasil na Segunda Guerra, onde alguns miguelenses acabaram se alistando e participando desta Guerra, mesmo que só tomando conta de fortificações nas fronteiras do país. Portanto, nosso bairro está representado na História da nossa cidade e do nosso país.
3.2.1. Terras Realengas ou Terras Renegadas
Durante todo o período colonial e boa parte do Republicano (no início do período), a localidade onde se encontra atual Zona Oeste do Rio de Janeiro, que abrange os bairros a partir de Deodoro, indo na direção oeste do Centro do Rio de Janeiro, até o bairro de Santa Cruz, incluindo-se nesta região bairros como: Realengo; Padre Miguel; Bangu; Senador Câmara; Campo Grande; Guaratiba; Sepetiba, entre outros, foi, como dissemos, denominada como ‘Terras Realengas’ ou ‘Terras Renegadas’, devido ao ermo em que se encontrava e a distância dos locais de movimento de pessoas e mercadorias importantes dos períodos citados, por isso, vieram a ser conhecida mais tarde, conforme dissemos, como ‘Terras do Sertão’, por causa do isolamento e pela aparente dificuldade em se tirar destas terras algo de produtivo, devido à aridez do lugar, o que o passar do tempo revelou ser uma inverdade, pois o local já fora, outrora, como já dissemos, ponto de cultivo de cana-de-açúcar, de café e de laranja e banana, sendo posteriormente um dos pólos industriais de tecidos (Bangu) e calçados (Bangu e Campo Grande) do Rio de Janeiro e hoje, tem como sua maior característica o comércio (Campo Grande) e os serviços diversos (Bangu, Campo Grande, Santa Cruz e Sepetiba-portuária).
3.2.2. As Ferrovias
O bairro de Padre Miguel deve sua existência à vários fatores, como por exemplo ao próprio crescimento populacional da cidade do Rio de Janeiro, aos ciclos da cana-de-açúcar e do café, ao aumento no preço de terras nas áreas centrais, à queda do preço do café e a venda das terras do local, à implantação das ferrovias, ao crescimento industrial do bairro vizinho de Bangu, através da Fábrica de Tecidos, ao Exército, que implantou no outro vizinho, Realengo, uma Fábrica de Cartuchos. Segundo a Companhia Brasileira de Trens Urbanos, a origem de muitos bairros foi proporcionada pela expansão dos seus trilhos.
"A implantação da Estrada de Ferro D.Pedro II, na segunda metade do século XIX fez parte de um processo de desenvolvimento econômico-social da Província do Rio de Janeiro. A lavoura de café evoluía com as grandes plantações em Valença, Vassouras, São João Marcos e outras localidades.
No perímetro urbano, surgiram os bancos, casas comerciais, indústrias e pequenas manufaturas. Desenvolvia-se a navegação marítima fluvial. A proibição do comércio de escravos e a chegada de imigrantes em busca de trabalho, entre eles nordestinos, liberados pela lavoura canavieira em crise, trouxeram aumento considerável da população urbana.
A ferrovia, como único meio de transporte viável, constituiu o pólo de atração para os núcleos populacionais que se instalavam ao longo de seus trilhos. Com o crescimento da cidade, valorizando os bairros nobres, mais próximos do Centro, milhares de trabalhadores empregados no comércio, bancos, manufaturas, entre outros, foram deslocados pouco a pouco, para os subúrbios mais distantes servidos pela Estrada de Ferro D. Pedro II.
Após a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, a Estrada de Ferro D. Pedro II passou a denominar-se Estrada de Ferro Central do Brasil.”(RFSSA/CBTU)
Eram as terras que pertenciam ao Exército Brasileiro, à Seda Moderna e à Fábrica Bangu, ‘compradas’ junto aos fazendeiros falidos ou endividados, devido ao baixo preço dos produtos agrícolas, e ao desestímulo ao plantio no início da República, por causa da queda do Império e Proclamação ainda muito desorganizada da República nos fins do século XIX.
Quando o ramal ferroviário de Santa Cruz foi inaugurado (fins do século XIX), e algumas estações e paradas de trem se disseminaram pela região onde hoje temos a Zona Oeste, algumas companhias industrias se sentiram atraídas pelas terras da localidade, em especial pela área compreendida entre os bairros de Deodoro e de Campo Grande (fins do século XIX e início do século XX), houve a troca da economia apenas rural do lugar, para uma polarização do desenvolvimento para o local, aproveitando-se as terras ociosas.
Na verdade, como já relatamos anteriormente, até as companhias continuavam plantando nas áreas onde antes havia fazendas, só cessando o cultivo com a exaustão das suas terras e a extinção de terras nobres e agricultáveis mais próximas pelo mau uso, o que fez com que se desvalorizassem todas as terras do local (década de vinte e trinta), somente a laranja resistia, em volume exportável, mesmo assim com fortes competidores a lhe retirar o lucro, como por exemplo, a Baixada Fluminense e municípios do interior de outros estados.
Para intensificar as atividades industriais as fábricas seguiam o modelo fordista, o de manter turnos ininterruptos de trabalho (oficiosamente), trabalho em equipe, muita mão-de-obra, oferecer vila operária para manter o trabalhador por perto, doar terras para ter serviços estatais nas proximidades o que desoneraria a produção e serviços, e também doar ou vender terras tidas como inúteis aos trabalhadores da ativa e como forma de previdência.
Enquanto isso o Exército Brasileiro ocupava as terras herdadas das extintas fazendas com a construção, é lógico, de quartéis, de arsenais, de paióis e campos de instruções no local onde se localiza o Gericinó. Também o Exército financiou casas para seus oficiais, suboficiais e até para os soldados na região que vai de Deodoro até Realengo.
Deixando de ocupar as áreas onde fazia limite com as terras da Fábrica Bangu, o Exército acabou colaborando com as invasões, principalmente em lugares onde hoje temos a Vila do Vintém, beneficiada pela construção de uma estação ferroviária no local, depois denominada Padre Miguel e as favelas que beiram o Campo do Gericinó, que se aproveitaram da inauguração da Avenida Brasil para acessarem as terras e se fixarem ali.
3.2.3. Os Apitos das Fábricas
Como bem explicado acima, um dos bairros que nasceram por causa da proximidade com as linhas férreas foi o nosso, com a construção das estações ferroviárias para facilitar a chegada de trabalhadores de longe às fábricas do bairros vizinhos, houve a concentração de atividades próximas tanto das fábricas, quanto das estações, o que favoreceu a permanência daqueles que viriam apenas para trabalhar nas fábricas.
Por outro lado, as atividades nas indústrias locais da época era em dois a três turnos de trabalho e nas fábricas a jornada chegava a 20 horas diárias, por vezes ultrapassando, somando-se a isso a longa viagem e os atrasos constantes dos trens, quando não às intermináveis suspensões de circulação (que se hoje são comuns, imagine no começo do século XX), era melhor para a maioria dos operários que se estabelecessem na área, como no centro dos bairros mais esfuziantes do local era impossível de plantar moradia, devido os terrenos terem donos poderosos como o Exército Brasileiro e a Companhia Industrial do Brasil, e também pelo fato de a Vila Operária estar plenamente ocupada e da doação de terrenos das fábricas para a prefeitura, muitos tiveram que manter um certo afastamento do seu local de trabalho, nada que uma caminhada de quarenta minutos não resolvesse, apesar de ser feita em trilhas e picadas na mata, até então comum nos arredores.
3.2.4. Além da vila operária
Além da vila operária havia, somente, algumas pequenas manchas de pré-urbanização como os loteamentos nas proximidades do local onde hoje se encontram a Avenida Brasil, e a estrada da Água Branca e no local onde hoje se estabeleceu o Parque Leopoldina até perto de onde está a estrada Cônego de Vasconcelos, todos provenientes do desmembramento ou possessão de fazendas, chácaras e sítios improdutivos do local, pois os proprietários estavam especulativamente, e tão somente isso, esperando pela sua valorização imobiliária, via implantação de infra-estrutura básica pelo governo, para venderem essas terras.
Algum tempo depois, surgiram os primeiros conjuntos de casas, mais amplas, em se tratando de objetivarem classes sociais médias baixas, logo depois doadas ao governo e a prefeitura para a instalação de órgãos públicos e bancos.
3.2.5. Os Conjuntos Habitacionais
Tempos mais tarde, do início até a metade da década de quarenta, aproximadamente entre 1941 e 1946, começou-se a promover o assentamento de famílias de classe média baixa, oriundas da Companhia Industrial do Brasil (Fábrica de Tecidos Bangu), em conjuntos habitacionais de porte bastante confortável como no do caso dos antigos Conjuntos do IAPI (Instituto Assistência Previdenciária dos Industriários), hoje conhecidos como conjunto da Caixa D' água e do INPS de Padre Miguel.
Esses conjuntos, apesar de feitos para população operária de renda baixa, privilegiava o bem estar: por serem bem ventilados; feitos com materiais resistentes (haja vista o tempo de existência); esquentam pouco, o que favorece o morador, pois a média de temperatura do local é de cerca de trinta graus na sombra e possuírem cômodos relativamente grandes e em número adequado para uma família média.
Esses conjuntos, do IAPI/IAPAS/INPS em Padre Miguel, conhecidos como apartamentos velhos, e o do IAPI/INPS apelidado de caixa d’água entre Padre Miguel e Realengo, hoje em dia se encontram densamente povoados, mas não são, em sua minoria, pelos moradores originais ou pelos seus descendentes diretos, mas é possível notar que todos se apresentam com marcas próprias de civilização, ou seja modificados com a construção de apêndices, que são: as garagens, os puxados, as coberturas, as mini-lojas, para satisfazerem o modo de vida da população local, numa prova de que o homem personifica seu habitat, construindo seu espaço geográfico que se constitui das coisas, objetos naturais ou artificiais que se tornam completo com a presença do homem que lhe imprime função e forma espacial, bem exemplificado neste contexto.
Mais tarde, na década de setenta, período do governo de Chagas Freitas (1971/1974), foram construídos na região de Bangu, os demais conjuntos habitacionais. Com seus prédios de apartamentos (Dom Jaime Câmara – Padre Miguel) ou casinhas (Ubaldo de Oliveira – Cancela Preta) bem estreitados, que parecem xerocópias repetitivas uns dos outros, como numa espécie de surto psicótico governamental em transformar seres humanos em passarinhos engaiolados.
Estes conjuntos foram construídos para abrigar a população de baixa renda das favelas em volta dos bairros nobres do Flamengo, Leblon, Copacabana, Gávea, Leme, removidas durante o governo de Chagas Freitas o que não resolveu o problema da High Society da época, a hoje não tão pujante Zona Sul, pois os primeiros moradores não se agradaram do lugar e resolveram vender seus nacos de concreto.
Como dissemos, com o passar de algumas décadas, surgiram outros conjuntos habitacionais na região vizinha, também feitos para abrigar as populações desfavorecidas de locais nobres da cidade, em Bangu como o da Vila Kennedy e o do Jardim Bangu, que passaram a rivalizar em termos de domínio de território com os de Padre Miguel, principalmente em se tratando do controle do tráfico de drogas pelas facções rivais, o Comando Vermelho e a ADA. Inclusive boa parte da população da Zona Oeste, é formada por contingentes populacionais que foram removidos das favelas de outras áreas da cidade do Rio de Janeiro, que trouxeram como marca de sua ‘digital’ a violência latente e ódio umas pelas outras, pois já eram inimigas no seu locus inicial.
Os favelados das áreas centrais, foram transferidos para a Zona Oeste principalmente, nos últimos 40 anos, e essa população era bastante insatisfeita, pois vieram, na maioria, contrariada, muitos não tiveram o apego necessário aos bairros que lhes receberam e na primeira oportunidade ou voltaram para os bairros de onde saíram ou foram para outros municípios, como os da Baixada Fluminense, que ofereciam melhor integração com o Centro. Sendo que, os que ficaram, muitos fizeram migrar seu ódio para o próprio sítio acolhedor, o que justifica em parte a violência que assola a região.
Ficaram apenas algumas poucas famílias dos favelados originários das áreas centrais do Rio de Janeiro e mais tarde houve uma chegada de pessoas atraídas pelos loteamentos baratos da região (Murundu, Sete-Sete, Cancela Preta,...), juntos os novos ‘repatriados’, a seu modo, resolveram a questão da frieza do concreto, da monotonia e impessoalidade dos conjuntos, pela criatividade com que imprimiram no passar dos anos sua ‘digital’ própria, suavizando, humanizando e vitalizando o bairro de maneira frenética e colonizaram, mesmo que desordenadamente o local que conhecemos hoje como Padre Miguel.
Essa união, consolidada pela truculência do estado, pelo acaso e pela necessidade, resultou na criação de fortes Associações de Moradores, como a do Dom Jaime Câmara e da Araquém, e estas, junto com demais moradores, resolveram quase todos os problemas que havia in situ, a falta naquela época de: comércio, de escolas particulares, postos de saúde, clínicas médicas, etc... só não foi possível vencer (ainda), um problema gravíssimo do lugar o tráfico de drogas, que é a principal causa de mortes no local, principalmente entre a população entre doze e trinta e cinco anos de idade, seja em embates diretos ou por balas perdidas.
3.2.6. O Avanço do Narcotráfico em Padre Miguel
Também conhecemos o lado negro destes conjuntos, quase todos com excessiva poluição visual, enfeiamento da paisagem e muitos deles têm histórias de violência para contar. O conjunto Dom Jaime Câmara teve épocas de lutas acirradas pelo domínio local. Primeiro entre a rua I e a rua P, sendo que os moradores de um lado não podiam, de maneira alguma, sair de uma área de influência e ultrapassar os limites do território de cada ‘barão da droga’. Depois vieram as contendas dessas duas ruas, agora unidas e irmanadas (década de oitenta), contra a insurgente Vila do Vintém, pela hegemonia do tráfico no bairro.
Acompanhando bem de perto a conduta dos moradores do bairro em sua periferia acometida pelos desmandos dos traficantes, nota-se que quando se faz qualquer perguntas à respeito da violência local, todos desconversam e mostram o quanto estão acuados, mas não se faz necessário perguntar nada, absolutamente, o simples passar de olhos pelas vielas sujas é o suficiente para ver jovens esquálidos armados e com seus semblantes assustadores, esses não demonstram nenhuma timidez em falar de sua vida pregressa e mostrar com um prazer, que beira a lascívia, suas armas vindas quase sempre da Europa Oriental, seja parados na entrada da favela da Vila Vintém, ou nas demais do bairro.
Acontecia nessas favelas, fenômeno parecido com o da divisão da Alemanha pela Guerra Fria, quem mora em local razoavelmente distante da Vila Vintém, e por esse motivo controlado por facção inimiga, acaba perdendo o contato com meus familiares que lá se encontram, pois na maioria das vezes havia conflito entre os manda chuvas do Conjunto Dom Jaime Câmara e a comunidade citada acima, numa alusão carioca ao ‘Muro de Berlim’. Não há como negar o medo. Imagine então quem convive diuturnamente com ele.
3.2.7. A unificação do Narcotráfico em Padre Miguel
De março de 1987 até setembro de 1998, observou-se um novo paradigma no local, com trocas de poderes na localidade, no que tange ao tráfico de drogas e ao jogo do bicho, moradores do local dão subsídios para as constatações dessa pesquisa, pois para chegar ao local de labuta e de estudo, a maioria tinha de passar pelos sub-bairros vizinhos, passando pelo ‘buraco do Viana’, tinha o pedágio que muitos pagavam para ter acesso ao outro lado da linha férrea. Até que em 1988 houve uma troca de comando, com o assassinato dos bandidos que atormentavam a Vila Vintém e a Sete – Sete.
Mas o fato importante, é que a mando do novo chefão do narcotráfico local, seus soldados derrubaram os tais cobradores de impostos improvisados e Padre Miguel passou a ter de certa forma, vida tranqüila, isso se comparada ao estado de coisas que havia antes. A partir daí houve várias guerras pela hegemonia do narcotráfico em Padre Miguel, culminando com a tomada total de poder por uma única facção a da ADA, que, utilizando-se das táticas militares tomou de assalto os morros e as favelas circunvizinhas e até mesmo de outros bairros da Zona Oeste.
Podemos dizer sem sombra de dúvida que a Vila Vintém é a capital do narcotráfico da Zona Oeste, era de lá que até bem pouco tempo atrás partiam as ordens da tomada de territórios e a assimilação de outras bocas de fumo e contingente de empregados para suas atividades, o que faz lembrar as guerras espartanas, contando para tanto com armamentos pesados; táticas de guerrilhas e farto apoio logístico.
3.2.8. Padre Miguel da Colônia à Globalização
Vimos, portanto, que a história do bairro de Padre Miguel está intrinsecamente relacionada com a história do país, desde o Brasil colônia, com os engenhos de cana-de-açúcar e fazendas de café, perpassando pelo período republicano, até a era globalizada das uniões, inclusive das facções criminosas mundiais. Notamos que o bairro não teve em nenhum momento uma ‘presença’ muito notável em relação à agricultura, à indústria e ao desenvolvimento econômico ou financeiro da região em destaque, mas a segunda metade do século XX trouxe a tona uma face do bairro que viria mais tarde a torná-lo um dos mais famosos do país, a sua escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel que projetou o bairro em todo canto da nação, sendo até mesmo conhecidos (a escola e por conseqüência o bairro) internacionalmente.
Sobre esse detalhe, que caracteriza o bairro como um dos mais famosos do Brasil, falaremos nos próximos capítulos, pois antes devemos conhecer o habitante de Padre Miguel no seu dia-a-dia, como vive ou sobrevive o miguelense, como está sendo conduzido o futuro dos que moram neste que é um dos bairros mais densamente ocupados do Rio de Janeiro e como cada miguelense pode ajudar a desenvolver melhor o bairro.
Tudo sobre tudo e algo mais: Indicando a direção dos ventos do mundo! Um pouco de cada assunto de interesse. Cidade e Urbanização, Ecologia e Meio Ambiente, População e Demografia, Geoeconomia e Geopolítica, Etc.
terça-feira, 1 de março de 2011
UM PADRE CHAMADO MIGUEL, UM BAIRRO CHAMADO PADRE MIGUEL (2ª PARTE)
2 – UM PADRE CHAMADO MIGUEL
Monsenhor Miguel de Santa Maria Mochon
Você talvez more num bairro, e como muitos, não sabe o motivo do nome deste bairro. Por exemplo, em nosso bairro sabemos que existe uma Escola de Samba famosa no Brasil e internacionalmente, mas não temos a menor noção de como foi que essa escola nasceu. Muito menos, da origem do nosso bairro.
Pois bem o bairro se chama Padre Miguel em homenagem ao Monsenhor Miguel de Santa Maria Mochon, que era pároco de uma das igrejas da região da Grande Bangu e de Realengo, ele gostava de fotografia e seu hobby era o cinema, chegou a produzir suas próprias filmagens, vale lembrar que naquela época, décadas de vinte a quarenta, não era muito comum o uso dos recursos cinematográficos para documentários, e o padre Miguel já o fazia, sendo um pioneiro do gênero no Brasil.
Na Igreja, ele passava tanto filmes em branco e preto famosos, como os de Charles Chaplin, ‘Abbot e Costello’ e ‘O Gordo e o Magro’, bem como os seus próprios documentários feitos no seu próprio aparelho, uma câmara de dezesseis milímetros (segundo contam alguns dos seus contemporâneos ainda vivos) e apresentava-os no seu projetor, o único em toda a região, naquela época.
Não temos como comprovar a veracidade destes fatos narrados pelos anciãos do bairro, uma vez que todos os pertencentes do padre se perderam, o que só corrobora a opinião da maioria em relação aos hábitos de preservação dos patrimônios físicos e intelectuais no nosso bairro.
O bairro, como já dissemos, foi se formando por vários fatores, entre eles a expansão das vias ferroviárias, principalmente com a inauguração do ramal de Santa Cruz em 02/12/1878, com a construção das estações de Bangu e de Realengo, e posteriormente a do bairro que recebeu esse nome, logicamente para homenagem algum padre importante do local, entre outros padres que fizeram parte do cotidiano do bairro, como os Padres: Paulo, Mazzini etc.
O Padre que recebeu a homenagem, o Monsenhor Miguel de Santa Maria Mochon, como falamos no início dos textos, que na verdade morou em Realengo, onde foi pároco neste bairro, como na época o bairro de Padre Miguel, logicamente, ainda não existia, a estação entre Realengo e Bangu foi 'batizada' com o nome do padre chamado Miguel. Para melhor ilustrar isso, no site da Mocidade há uma verdadeira verborragia contando-nos quem foi o padre Miguel e seu único biógrafo, o falecido professor da Universidade Castelo Branco Carlos Wenceslaw.
Monsenhor Miguel de Santa Maria Mochon
Você talvez more num bairro, e como muitos, não sabe o motivo do nome deste bairro. Por exemplo, em nosso bairro sabemos que existe uma Escola de Samba famosa no Brasil e internacionalmente, mas não temos a menor noção de como foi que essa escola nasceu. Muito menos, da origem do nosso bairro.
Pois bem o bairro se chama Padre Miguel em homenagem ao Monsenhor Miguel de Santa Maria Mochon, que era pároco de uma das igrejas da região da Grande Bangu e de Realengo, ele gostava de fotografia e seu hobby era o cinema, chegou a produzir suas próprias filmagens, vale lembrar que naquela época, décadas de vinte a quarenta, não era muito comum o uso dos recursos cinematográficos para documentários, e o padre Miguel já o fazia, sendo um pioneiro do gênero no Brasil.
Na Igreja, ele passava tanto filmes em branco e preto famosos, como os de Charles Chaplin, ‘Abbot e Costello’ e ‘O Gordo e o Magro’, bem como os seus próprios documentários feitos no seu próprio aparelho, uma câmara de dezesseis milímetros (segundo contam alguns dos seus contemporâneos ainda vivos) e apresentava-os no seu projetor, o único em toda a região, naquela época.
Não temos como comprovar a veracidade destes fatos narrados pelos anciãos do bairro, uma vez que todos os pertencentes do padre se perderam, o que só corrobora a opinião da maioria em relação aos hábitos de preservação dos patrimônios físicos e intelectuais no nosso bairro.
O bairro, como já dissemos, foi se formando por vários fatores, entre eles a expansão das vias ferroviárias, principalmente com a inauguração do ramal de Santa Cruz em 02/12/1878, com a construção das estações de Bangu e de Realengo, e posteriormente a do bairro que recebeu esse nome, logicamente para homenagem algum padre importante do local, entre outros padres que fizeram parte do cotidiano do bairro, como os Padres: Paulo, Mazzini etc.
O Padre que recebeu a homenagem, o Monsenhor Miguel de Santa Maria Mochon, como falamos no início dos textos, que na verdade morou em Realengo, onde foi pároco neste bairro, como na época o bairro de Padre Miguel, logicamente, ainda não existia, a estação entre Realengo e Bangu foi 'batizada' com o nome do padre chamado Miguel. Para melhor ilustrar isso, no site da Mocidade há uma verdadeira verborragia contando-nos quem foi o padre Miguel e seu único biógrafo, o falecido professor da Universidade Castelo Branco Carlos Wenceslaw.
UM PADRE CHAMADO MIGUEL, UM BAIRRO CHAMADO PADRE MIGUEL (1ª PARTE)
1 - O BAIRRO DE PADRE MIGUEL
1.1. Localização do Bairro
Localizado na Zona Oeste da Cidade do Rio de Janeiro, na Microrregião da Grande Bangu, o bairro, tendo como vizinhos os seguintes bairros: Bangu, ao sul, a oeste e ao norte e Realengo ao sul, a leste e ao norte. Entre as suas principais características: É um dos bairros de maior densidade populacional da Zona Oeste e do Rio de Janeiro; é um dos que tem as maiores e as menores temperaturas do município, ao lado de Bangu; sua área foi ocupada em razão da proximidade de duas fábricas polarizadoras, o que é responsável em parte pela sua alta densidade demográfica e é um dos bairros do município onde a quase totalidade de seu território se constitui de áreas construídas.
1.2. Bairros Sem Memória
Pesquisando e, conseqüentemente, conhecendo a história do nosso bairro, percebemos que ao longo do tempo, este espaço sofreu transformações provocadas pela necessidade e pelos interesses das pessoas que atuaram no local, modelando-o e até mesmo debelando-o. Para acessarmos vestígios do nascimento e da evolução do bairro, foi necessário pesquisar em algumas poucas fontes e consultar arquivos pessoais de moradores mais antigos do bairro, muitos dos entrevistados foram, inclusive, os primeiros moradores e, praticamente, fundadores do bairro.
Já não é de hoje que notamos a dificuldade de se encontrar material para pesquisa sobre os bairros da Zona Oeste, mesmo os mais famigerados, é comum a desistência logo no começo, pois não há quase material sobre esses rincões perdidos do Rio de Janeiro. Quando pesquisamos sobre os bairros de Bangu, Campo Grande e Santa Cruz, ainda é possível acharmos algum material, mesmo que repetitivos e alguns especulativos apenas, mas quando resolvemos pesquisar os bairros mais periféricos, o problema aparece, parece-nos que há um esforço para que se esqueça do local, como se este fosse uma chaga purulenta, que precisa ser coberta para não deixar transparecer o ‘mau cheiro’.
Os registros oficiais que temos, são, na maioria dos bairros mais vistosos, que nomeiam grandes regiões novamente os bairros de Bangu, Campo Grande e Santa Cruz, não é difícil saber como esses bairros se formaram e como vive hoje a sua população, mas e os periféricos como Padre Miguel e Senador Camará? Como se formaram? Por que dos nomes? Afinal de contas quem foi Padre Miguel? O que motivou as pessoas a virem morar aqui? Será que vieram por conta própria ou obrigados? São essas perguntas que tentei responder e pesquisei para isto, mesmo sabendo que não teria nem onde procurar e muito menos materiais à disposição.
1.3. Propagandas Contra
É como um desabafo que digo isso porque sempre fiz esforço e questão de lembrar das coisas desta localidade (Região de Bangu), lugar onde vivemos e trabalhamos, e que tentamos a todo custo melhorar, para que nossos filhos venham a se orgulhar de morar num bairro mais aprazível. Mas não temos, hoje em dia muito que nos orgulhar em relação aos bairros da Zona Oeste, por motivos que vão desde a violência latente em alguns sub-bairros como Vila Kennedy e Senador Camará, onde é comum: por qualquer motivo a população favelada, comandada pelo narcotráfico atear fogo em ônibus, matando pessoas inocentes; os embates entre facções rivais do tráfico de drogas por territórios e lucros; a quantidade enorme de viciados que cometem delitos para sustentar seus vícios; entre outras coisas mais deterioradas ainda.
Aqui na região, também temos o famigerado (mal falado, a bem da verdade) conjunto de presídios de Bangu, exaustivamente mostrado nas redes de televisão por causa de rebeliões e pelos ‘ilustres’ moradores deste que é um verdadeiro reesort para maus elementos que ‘deveriam se regenerar’. Mas na verdade, além de parecer um hotel cinco estrelas (um quartel General do crime, com direito a infra-estrutura nos moldes do Pentágono), este barril de pólvora acabou de vez com a fama de bairros tranqüilos da localidade. Qualquer pessoa que ouça falar de Padre Miguel, Bangu, etc. fatalmente ligará esses bairros aos presídios e por puro preconceito já terá uma certa imagem negativa do local.
Outro fator extremamente importante para compreendermos o porque do estado de abandono de nossos bairros é o fato de se encontrar em área limite entre regiões e/ou municípios, ainda mais quando o encontro destas regiões se dá entre localidades pobres como a Região da Grande Bangu e a da Grande Realengo, intensamente favelizadas, e de estarem situadas em áreas limítrofes com áreas tremendamente abandonadas de outros municípios ainda mais carentes, mesmo quando comparados com os nossos bairros, como no caso de Nova Iguaçu e Nilópolis.
1.4. Recuperação da Auto-Estima Coletiva
Como morador e trabalhador do local, acho de extrema importância que tenhamos condições de valorizar o bairro e passar para as futuras gerações algo do qual possam se orgulhar. Para isso é de fundamental relevância que recuperemos a auto-estima coletiva, ou seja, que todos passem a bem dizer o seu lugar, afinal de contas é no lugar em que vivemos onde travamos as relações de afeto, ou até mesmo onde fazemos as catarses do cotidiano, onde fomos acalentados por nossos pais e agora criamos os nossos filhos e onde se dão as relações sociais, políticas e econômicas mais diretamente ligadas ao cidadão (SANTOS, 1996). Sendo assim não é justo que falemos mal desta terra, muito menos que deixemos que exponham nossas falhas sem que tenhamos o direito a legitima defesa.
Para começar este árduo trabalho de recuperação da imagem dos bairros nada melhor do que passarmos a escrever sobre eles, para que possam ser conhecidos pelo que foram no passado, pelo que são hoje e pelas possibilidades que possuem de desenvolvimento no futuro. Sabendo que a Cidade do Rio de Janeiro não tem mais para onde crescer, a não ser que na direção oeste, onde ainda temos terras ociosas, faz-se necessário uma valorização do potencial dos bairros para que possam parecer atraentes para o capital e assim trazer algum investimento do quais carecemos.
Em relação ao bairro de Padre Miguel, suas maiores potencialidades são turísticas/culturais e existem locais que poderiam ser aproveitados como áreas comerciais ou de indústrias de pequeno porte, como os terrenos baldios ao sul e sudoeste do bairro (poderiam ser instaladas concessionárias de automóveis), e ao norte e nordeste nos arredores da Avenida Brasil, já fazendo limite com o bairro de Realengo, onde ainda há espaços, e que estão sendo invadidos e favelizados, alias esta é uma das causas do esvaziamento do local, a favelização que foi até mesmo incentivada pelos poderes públicos em tempos remotos e hoje é o grande gargalo político para ser resolvido pelos governantes.
Convidamos o leitor a refletir junto conosco sobre os problemas mais imediatos do país, do estado e do município, mas sem deixar nunca de lembrar que as ações em âmbito locais são as que mais contribuem para o sucesso das políticas regionais, e que no fim das contas são elas que perfazem as atitudes mais acertadas em termos globais.
1.1. Localização do Bairro
Localizado na Zona Oeste da Cidade do Rio de Janeiro, na Microrregião da Grande Bangu, o bairro, tendo como vizinhos os seguintes bairros: Bangu, ao sul, a oeste e ao norte e Realengo ao sul, a leste e ao norte. Entre as suas principais características: É um dos bairros de maior densidade populacional da Zona Oeste e do Rio de Janeiro; é um dos que tem as maiores e as menores temperaturas do município, ao lado de Bangu; sua área foi ocupada em razão da proximidade de duas fábricas polarizadoras, o que é responsável em parte pela sua alta densidade demográfica e é um dos bairros do município onde a quase totalidade de seu território se constitui de áreas construídas.
1.2. Bairros Sem Memória
Pesquisando e, conseqüentemente, conhecendo a história do nosso bairro, percebemos que ao longo do tempo, este espaço sofreu transformações provocadas pela necessidade e pelos interesses das pessoas que atuaram no local, modelando-o e até mesmo debelando-o. Para acessarmos vestígios do nascimento e da evolução do bairro, foi necessário pesquisar em algumas poucas fontes e consultar arquivos pessoais de moradores mais antigos do bairro, muitos dos entrevistados foram, inclusive, os primeiros moradores e, praticamente, fundadores do bairro.
Já não é de hoje que notamos a dificuldade de se encontrar material para pesquisa sobre os bairros da Zona Oeste, mesmo os mais famigerados, é comum a desistência logo no começo, pois não há quase material sobre esses rincões perdidos do Rio de Janeiro. Quando pesquisamos sobre os bairros de Bangu, Campo Grande e Santa Cruz, ainda é possível acharmos algum material, mesmo que repetitivos e alguns especulativos apenas, mas quando resolvemos pesquisar os bairros mais periféricos, o problema aparece, parece-nos que há um esforço para que se esqueça do local, como se este fosse uma chaga purulenta, que precisa ser coberta para não deixar transparecer o ‘mau cheiro’.
Os registros oficiais que temos, são, na maioria dos bairros mais vistosos, que nomeiam grandes regiões novamente os bairros de Bangu, Campo Grande e Santa Cruz, não é difícil saber como esses bairros se formaram e como vive hoje a sua população, mas e os periféricos como Padre Miguel e Senador Camará? Como se formaram? Por que dos nomes? Afinal de contas quem foi Padre Miguel? O que motivou as pessoas a virem morar aqui? Será que vieram por conta própria ou obrigados? São essas perguntas que tentei responder e pesquisei para isto, mesmo sabendo que não teria nem onde procurar e muito menos materiais à disposição.
1.3. Propagandas Contra
É como um desabafo que digo isso porque sempre fiz esforço e questão de lembrar das coisas desta localidade (Região de Bangu), lugar onde vivemos e trabalhamos, e que tentamos a todo custo melhorar, para que nossos filhos venham a se orgulhar de morar num bairro mais aprazível. Mas não temos, hoje em dia muito que nos orgulhar em relação aos bairros da Zona Oeste, por motivos que vão desde a violência latente em alguns sub-bairros como Vila Kennedy e Senador Camará, onde é comum: por qualquer motivo a população favelada, comandada pelo narcotráfico atear fogo em ônibus, matando pessoas inocentes; os embates entre facções rivais do tráfico de drogas por territórios e lucros; a quantidade enorme de viciados que cometem delitos para sustentar seus vícios; entre outras coisas mais deterioradas ainda.
Aqui na região, também temos o famigerado (mal falado, a bem da verdade) conjunto de presídios de Bangu, exaustivamente mostrado nas redes de televisão por causa de rebeliões e pelos ‘ilustres’ moradores deste que é um verdadeiro reesort para maus elementos que ‘deveriam se regenerar’. Mas na verdade, além de parecer um hotel cinco estrelas (um quartel General do crime, com direito a infra-estrutura nos moldes do Pentágono), este barril de pólvora acabou de vez com a fama de bairros tranqüilos da localidade. Qualquer pessoa que ouça falar de Padre Miguel, Bangu, etc. fatalmente ligará esses bairros aos presídios e por puro preconceito já terá uma certa imagem negativa do local.
Outro fator extremamente importante para compreendermos o porque do estado de abandono de nossos bairros é o fato de se encontrar em área limite entre regiões e/ou municípios, ainda mais quando o encontro destas regiões se dá entre localidades pobres como a Região da Grande Bangu e a da Grande Realengo, intensamente favelizadas, e de estarem situadas em áreas limítrofes com áreas tremendamente abandonadas de outros municípios ainda mais carentes, mesmo quando comparados com os nossos bairros, como no caso de Nova Iguaçu e Nilópolis.
1.4. Recuperação da Auto-Estima Coletiva
Como morador e trabalhador do local, acho de extrema importância que tenhamos condições de valorizar o bairro e passar para as futuras gerações algo do qual possam se orgulhar. Para isso é de fundamental relevância que recuperemos a auto-estima coletiva, ou seja, que todos passem a bem dizer o seu lugar, afinal de contas é no lugar em que vivemos onde travamos as relações de afeto, ou até mesmo onde fazemos as catarses do cotidiano, onde fomos acalentados por nossos pais e agora criamos os nossos filhos e onde se dão as relações sociais, políticas e econômicas mais diretamente ligadas ao cidadão (SANTOS, 1996). Sendo assim não é justo que falemos mal desta terra, muito menos que deixemos que exponham nossas falhas sem que tenhamos o direito a legitima defesa.
Para começar este árduo trabalho de recuperação da imagem dos bairros nada melhor do que passarmos a escrever sobre eles, para que possam ser conhecidos pelo que foram no passado, pelo que são hoje e pelas possibilidades que possuem de desenvolvimento no futuro. Sabendo que a Cidade do Rio de Janeiro não tem mais para onde crescer, a não ser que na direção oeste, onde ainda temos terras ociosas, faz-se necessário uma valorização do potencial dos bairros para que possam parecer atraentes para o capital e assim trazer algum investimento do quais carecemos.
Em relação ao bairro de Padre Miguel, suas maiores potencialidades são turísticas/culturais e existem locais que poderiam ser aproveitados como áreas comerciais ou de indústrias de pequeno porte, como os terrenos baldios ao sul e sudoeste do bairro (poderiam ser instaladas concessionárias de automóveis), e ao norte e nordeste nos arredores da Avenida Brasil, já fazendo limite com o bairro de Realengo, onde ainda há espaços, e que estão sendo invadidos e favelizados, alias esta é uma das causas do esvaziamento do local, a favelização que foi até mesmo incentivada pelos poderes públicos em tempos remotos e hoje é o grande gargalo político para ser resolvido pelos governantes.
Convidamos o leitor a refletir junto conosco sobre os problemas mais imediatos do país, do estado e do município, mas sem deixar nunca de lembrar que as ações em âmbito locais são as que mais contribuem para o sucesso das políticas regionais, e que no fim das contas são elas que perfazem as atitudes mais acertadas em termos globais.
UM PADRE CHAMADO MIGUEL, UM BAIRRO CHAMADO PADRE MIGUEL (APRESENTAÇÃO)
APRESENTAÇÃO
Este trabalho não tem a pretensão de ser um tratado histórico ou mapeamento do bairro, muito menos de servir como material político ou didático, apenas pretendeu-se mostrar nestas linhas o que já é do conhecimento de quase toda a população da Zona Oeste, que se vive num lugar que sofre o preconceito e a discriminação de outros bairros e até mesmo dos bairros mais centrais da região. Preconceito este, por que muitos acham que aqui só há roça ou aridez, numa espécie de deturpação do conhecimento, por que outrora estas terras foram chamadas de sertões.
De tudo, o que mais nos afeta é a discriminação, pois sabemos que apesar de ser o último caminho viável para o desenvolvimento industrial do município (uma vez que outras freguesias já esgotaram ou estão quase exaurindo suas capacidades), mesmo assim sofremos com a falta de investimentos da Prefeitura e do Estado Rio de Janeiro para viabilizar tal vocação da nossa região. Discriminação pelo fato de apesar de fazer parte da mesma Zona Geográfica, bairros como Jacarepaguá e Barra da Tijuca se ‘comportam’ como Zona e Sul, tendo suas metas voltadas para os padrões de vida das classes média e alta da cidade, em detrimento do desenvolvimento potencial da verdadeira área em que se situam.
Um dos fatos mais lamentáveis é o preconceito dentro da nossa própria região, é comum quem mora no centro de Bangu, Campo Grande, Realengo e Santa Cruz, tratar com certo desdém os que moram mais para a periferia, porém quando são descriminados pelos moradores da Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Jacarepaguá (que também são bairros da Zona Oeste), se sentem constrangidos (é difícil não se sentir um intruso nas praias da Barra da Tijuca, ainda mais quando o ônibus Bangu/Barra para e solta um monte de gente com 'cara de Zona Oeste pobre'), mas a vida é assim mesmo, basta se ter um pouco mais para achar que se tem demais.
Mas chega de lamentações, a motivação inicial de escrever sobre o bairro de Padre Miguel, é que apesar de simpático e bastante freqüentado, o bairro não dispõe de quase nenhuma literatura que o especifique. Não é muito difícil achar material sobre Santa Cruz, Campo Grande, Bangu e Realengo, uma vez que são os bairros mais famosos, mas quando queremos saber algo sobre os outros bairros da região, é praticamente um trabalho perdido, como achar agulha em palheiro. Por isso esta iniciativa que espero ser seguida por outros incomodados com o anonimato de suas terras, ou então, o que é muito pior, a difamação delas, como é o caso de Senador Camará que só é conhecido pelos incêndios á coletivos e pelas favelas que vivem se digladiando, e esquecido no seu teor histórico como é o caso da Fazenda do Viegas, e o mesmo acontece com o bairro de Padre Miguel, que é muito mais conhecido pela Vila Vintém e pelo narcotráfico do que pelas suas verdadeiras características, as quais tentarei passar para quem vier a ler estas linhas.
Peço desculpas se durante a leitura alguém se achar ofendido, a si ou a seu bairro, mas é necessário que se faça aqui algumas correções e comparações com outras regiões o que fatalmente poderá ser mal entendido, ou mesmo deturpado. Porém, como qualquer esforço valerá a pena para que o nome de nosso bairro seja bendito, esperando sempre que ninguém se subleve por este meu pequeno intento e que também seja relevante algum dia, quem sabe, incentivando outros escritores e poetas regionais a bem dizer os nossos bairros tão carentes de afeto.
Este trabalho não tem a pretensão de ser um tratado histórico ou mapeamento do bairro, muito menos de servir como material político ou didático, apenas pretendeu-se mostrar nestas linhas o que já é do conhecimento de quase toda a população da Zona Oeste, que se vive num lugar que sofre o preconceito e a discriminação de outros bairros e até mesmo dos bairros mais centrais da região. Preconceito este, por que muitos acham que aqui só há roça ou aridez, numa espécie de deturpação do conhecimento, por que outrora estas terras foram chamadas de sertões.
De tudo, o que mais nos afeta é a discriminação, pois sabemos que apesar de ser o último caminho viável para o desenvolvimento industrial do município (uma vez que outras freguesias já esgotaram ou estão quase exaurindo suas capacidades), mesmo assim sofremos com a falta de investimentos da Prefeitura e do Estado Rio de Janeiro para viabilizar tal vocação da nossa região. Discriminação pelo fato de apesar de fazer parte da mesma Zona Geográfica, bairros como Jacarepaguá e Barra da Tijuca se ‘comportam’ como Zona e Sul, tendo suas metas voltadas para os padrões de vida das classes média e alta da cidade, em detrimento do desenvolvimento potencial da verdadeira área em que se situam.
Um dos fatos mais lamentáveis é o preconceito dentro da nossa própria região, é comum quem mora no centro de Bangu, Campo Grande, Realengo e Santa Cruz, tratar com certo desdém os que moram mais para a periferia, porém quando são descriminados pelos moradores da Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Jacarepaguá (que também são bairros da Zona Oeste), se sentem constrangidos (é difícil não se sentir um intruso nas praias da Barra da Tijuca, ainda mais quando o ônibus Bangu/Barra para e solta um monte de gente com 'cara de Zona Oeste pobre'), mas a vida é assim mesmo, basta se ter um pouco mais para achar que se tem demais.
Mas chega de lamentações, a motivação inicial de escrever sobre o bairro de Padre Miguel, é que apesar de simpático e bastante freqüentado, o bairro não dispõe de quase nenhuma literatura que o especifique. Não é muito difícil achar material sobre Santa Cruz, Campo Grande, Bangu e Realengo, uma vez que são os bairros mais famosos, mas quando queremos saber algo sobre os outros bairros da região, é praticamente um trabalho perdido, como achar agulha em palheiro. Por isso esta iniciativa que espero ser seguida por outros incomodados com o anonimato de suas terras, ou então, o que é muito pior, a difamação delas, como é o caso de Senador Camará que só é conhecido pelos incêndios á coletivos e pelas favelas que vivem se digladiando, e esquecido no seu teor histórico como é o caso da Fazenda do Viegas, e o mesmo acontece com o bairro de Padre Miguel, que é muito mais conhecido pela Vila Vintém e pelo narcotráfico do que pelas suas verdadeiras características, as quais tentarei passar para quem vier a ler estas linhas.
Peço desculpas se durante a leitura alguém se achar ofendido, a si ou a seu bairro, mas é necessário que se faça aqui algumas correções e comparações com outras regiões o que fatalmente poderá ser mal entendido, ou mesmo deturpado. Porém, como qualquer esforço valerá a pena para que o nome de nosso bairro seja bendito, esperando sempre que ninguém se subleve por este meu pequeno intento e que também seja relevante algum dia, quem sabe, incentivando outros escritores e poetas regionais a bem dizer os nossos bairros tão carentes de afeto.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
A BATALHA URBANA PELO TERRITÓRIO APENAS COMEÇOU
Engana-se quem acha que a ‘retomada’ do controle do Complexo do Alemão foi uma vitória definitiva das forças públicas contra o narcotráfico e o que chamo de drugbusiness. Foi apenas uma resposta pontual a um desafio perpetrado por uma facção aos poderes públicos. Sem, necessariamente, ter sido a resposta correta e exemplar. Explico: não houve retomada total de território e nem a aniquilação da facção e do poderio bélico e financeiro da quadrilha.
O que notamos foi a total incompetência do Governo do Estado do Rio de Janeiro em lidar com a criminalidade. Não falo deste governador que está aí, mas de tantos outros que fizeram vistas grossas para a ocupação de territórios pelas facções. Vendo o filme nacional Assalto ao Trem Pagador, que é da década de 1960, noto que já naquela época já existia uma certa ‘organização’ do crime. Hoje, o que chamam de crime organizado, nada mais é do que barbárie.
Digo que o crime é desorganizado porque não vejo uma hierarquia de fato, é um ‘cada um por si’, e para causar danos, convenhamos, não é preciso organização. Destruir é muito mais fácil do que construir, todos sabemos. As imagens da televisão mostram um bando desorganizado correndo atrás de outro bando desorganizado. Concluímos então que não é a organização do crime que dá trabalho e sim a desorganização do aparato policial.
Muitos dirão que foi um sucesso a invasão e a contensão do crime nos morros ocupados. Porém, pergunto: Quantos foram presos em relação à quantidade que vimos escapulindo pela mata? Quantos fugiram e escafederam pelo esgoto? Quem afinal de contas venceu a batalha afinal? Será que só os moradores do lugar ficarão satisfeitos enquanto o resto da cidade terá que pagar? Uma vez que os bandidos migraram para outras favelas, será que o bem venceu mesmo?
Governantes, olhai por nós!!!
sábado, 4 de dezembro de 2010
A DISTÂNCIA ENTRE O HOMEM E A NATUREZA
Vivemos em uma época difícil, apesar de tantas informações espalhadas pela mídia a ignorância prevalece. Há pouco tempo atrás foi a gripe suína que assolou o mundo, agora temos a super-bactéria e os surtos de cólera. E num futuro muito próximo haverá mais doenças antigas voltando à tona.
A verdade é que apesar dos avanços na medicina e na indústria farmacêutica o que vemos é a natureza vencer todos os esforços da humanidade. Mas isso se dá porque cismamos que temos que viver a parte da natureza, quando o certo seria estarmos caminhando juntos e cooperando para que nenhum dos dois se extinguisse.
Em relação à KPC, bactéria resistente a quase todos os antibióticos existentes, parte da culpa é da classe médica que receita antibióticos para quase qualquer coisa. Outro grande culpado é o setor farmacêutico que vende facilmente antibióticos para qualquer um sem critério, quando o certo seria exigir receita e mesmo com elas, analisar se são necessários.
Quando não conseguimos remediar por conta própria as nossas doenças, procuramos um médico. Aí, esbarramos em dois problemas distintos: primeiro a falta de médicos nas redes públicas e particulares e segundo na competência do médico que irá nos atender, haja vista a quantidade de falsos médicos nos hospitais particulares.
Chegamos à conclusão de que tudo é feito para desviar o foco da verdadeira questão. Por exemplo: quando criaram as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), a idéia era desviar o foco, tirar a luz de cima dos hospitais públicos sucateados e funcionando a meia-boca e jogar luz em um projeto que viria a ser a salvação da lavoura. Só que essa salvação não veio e ficamos com mais lugares sem médicos e com péssimos atendimentos.
Agora veio a super-bactéria, imune aos antibióticos e se alastrando a torto e à direita. E apesar dos esforços das autoridades em dizer que não há casos em que houve óbitos, sabemos que ela já vem matando bastante. Só que no atestado de óbito vem os genéricos: infecção hospitalar, mal-súbito ou pneumonia. O que serve para camuflar o que acontece na verdade.
É verdade que esta bactéria não é transmissível pelo ar, nem por simples contato físico. É preciso que haja uma incisão para que ela penetre no corpo de algum ser humano e que este esteja bastante debilitado devido a uma doença ao estado pós-operatório. Mas é assustador saber que existe algum inimigo que está além das capacidades mortais de nossas armas químicas.
Sonho com o dia e que nosso sistema de saúde e de educação entrem em sintonia e a prevenção venha na frente do tratamento. Também creio na informação/informatização como solução para as mazelas do país. Mas, parece que nossos governantes ainda estão no século XIX e acabaram de descobrir a vacina... Aquela: vacinia vacum... A cura do pus da vaca. É muito triste para ser levado na sacanagem.
Governantes, olhai por nós!
A verdade é que apesar dos avanços na medicina e na indústria farmacêutica o que vemos é a natureza vencer todos os esforços da humanidade. Mas isso se dá porque cismamos que temos que viver a parte da natureza, quando o certo seria estarmos caminhando juntos e cooperando para que nenhum dos dois se extinguisse.
Em relação à KPC, bactéria resistente a quase todos os antibióticos existentes, parte da culpa é da classe médica que receita antibióticos para quase qualquer coisa. Outro grande culpado é o setor farmacêutico que vende facilmente antibióticos para qualquer um sem critério, quando o certo seria exigir receita e mesmo com elas, analisar se são necessários.
Quando não conseguimos remediar por conta própria as nossas doenças, procuramos um médico. Aí, esbarramos em dois problemas distintos: primeiro a falta de médicos nas redes públicas e particulares e segundo na competência do médico que irá nos atender, haja vista a quantidade de falsos médicos nos hospitais particulares.
Chegamos à conclusão de que tudo é feito para desviar o foco da verdadeira questão. Por exemplo: quando criaram as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), a idéia era desviar o foco, tirar a luz de cima dos hospitais públicos sucateados e funcionando a meia-boca e jogar luz em um projeto que viria a ser a salvação da lavoura. Só que essa salvação não veio e ficamos com mais lugares sem médicos e com péssimos atendimentos.
Agora veio a super-bactéria, imune aos antibióticos e se alastrando a torto e à direita. E apesar dos esforços das autoridades em dizer que não há casos em que houve óbitos, sabemos que ela já vem matando bastante. Só que no atestado de óbito vem os genéricos: infecção hospitalar, mal-súbito ou pneumonia. O que serve para camuflar o que acontece na verdade.
É verdade que esta bactéria não é transmissível pelo ar, nem por simples contato físico. É preciso que haja uma incisão para que ela penetre no corpo de algum ser humano e que este esteja bastante debilitado devido a uma doença ao estado pós-operatório. Mas é assustador saber que existe algum inimigo que está além das capacidades mortais de nossas armas químicas.
Sonho com o dia e que nosso sistema de saúde e de educação entrem em sintonia e a prevenção venha na frente do tratamento. Também creio na informação/informatização como solução para as mazelas do país. Mas, parece que nossos governantes ainda estão no século XIX e acabaram de descobrir a vacina... Aquela: vacinia vacum... A cura do pus da vaca. É muito triste para ser levado na sacanagem.
Governantes, olhai por nós!
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