segunda-feira, 7 de março de 2011

A GEOPOLÍTICA DA REGIÃO DE BANGU - URBANIZAÇÃO

Fases do povoamento e ocupação espacial

Em toda organização social, coexistem diferentes grupos que procuram se integrar através de atividades ligadas seja ao governo, ao trabalho ou ao meramente ao lazer.

O tipo de relacionamento entre eles e o sistema de escolha dos locais variam de acordo com a sua classe na sociedade, mas há sempre grupos que predominam em determinados momentos históricos, foi assim com os operários da Fábrica Bangu, depois com os cidadãos de classe média baixa que migraram para cá, devido ao progresso local e hoje outros grupos que, infelizmente, nem sempre cooperam para manter o bairro saudável.

Quem andar pelo calçadão de Bangu, caminhar pelo centro de Realengo, ou, até mesmo, passear pelo Ponto Chique de Padre Miguel, notará esses aspectos de bairro interior, próprio dos subúrbios cariocas: há idosos e crianças nas ruas, jovens praticando esporte, mulheres comprando no farto comércio local, mas sem o barulho exagerado do Centro da cidade do Rio de Janeiro, ou do intenso movimento desenfreado, ruidoso e caótico de Madureira e Campo Grande, onde mal se pode dar um passo sem esbarrar em alguém.

Esse sossego foi a muito tempo atrás razão de orgulho dos antigos moradores da região, e atraente para milhares de cariocas seduzidos pelo espírito empreendedor de Guilherme da Silveira, que com seu estilo fordista, ajudou a fazer de Bangu um bairro próspero e polarizador.

Começo da urbanidade

Em 1900 começam obras de infra-estrutura urbana, como a utilização do manancial do Rio da Prata para geração de energia elétrica para a Fábrica de tecidos Bangu, depois em 1916 os primeiros dutos de esgoto residencial foram implantados para colher os dejetos das casas operárias.

Vias de circulação

Em 1906, a Estrada do Engenho do Retiro foi a primeira da região a ser urbanizada, na verdade, foi calçada com pedras tiradas dos morros vizinhos e outras que vieram de refugos das obras que foram efetuadas no local. Em 1907 foi a vez da Rua Ceres, ligando a ferrovia ao caminho da Água Branca, hoje Estrada da Água Branca – ser, também, calçada com pedras.

A bem da verdade a primeira rua, propriamente dita, foi a antiga Caminho dos Jesuítas, que depois passou a ser conhecida como Estrada Real de Santa Cruz, isso em 1903, onde já havia outras três ruas e uma picadas, todas abertas pela Companhia Industrial do Brasil.

Alguns caminhos viraram ruas como: o caminho da Fazenda do Retiro, o do Marco Seis, o da Fazenda do Viegas, o do Cafuá, o do São Bento, o da Caixinha, o do Sandá, o do Gericinó, o do Guandu, o da Água Branca, o do Engenho, o do Lúcio, o da Maravilha, o do Murundu e o da Feira, todos ligavam o centro a pontos de importância local ou aos escoadouros de produção agrícola ou fabril, como a ferrovia ou estradas interurbanas, ainda incipientes.

A partir de 1924, começa em Bangu um maior e mais agressivo processo de urbanização, com a passagem de uma paisagem absolutamente rural, para uma mais citadina. Já em 1925, com a construção da Avenida Rio – São Paulo, há um maior incremento para esta urbanização incipiente e o desenvolvimento de atividades mais rebuscadas da paisagem urbana, como o comércio e alguns serviços, e em 1937 o Governo Federal providencia uma rede de água no local, o que induz ao chamamento de repartições públicas, já que nesta etapa do seu desenvolvimento o bairro já crescia em população, o que fazia necessário pelo menos a ordenação pública deste crescimento.

Hoje o sistema viário que corta a região, não é ruim, contamos com cinco estradas principais dentro da região, a dos Coqueiros, a da Taquaral, a Ministro Ari Franco e a do Engenho, que ligam os bairros e sub-bairros locais; duas de saída para outras regiões, a Santa Cruz e da Água Branca e a Avenida Brasil, que tem extensão considerável e liga praticamente quase todas as regiões e zonas geográficas do município do Rio de Janeiro. Repare no quadro abaixo as características dos transportes na região:

Região de Bangu – Sistema Viário

Transporte Ferroviário 5 estações ferroviárias: Realengo, Padre Miguel, Guilherme da Silveira, Bangu e Senador Camará.

Transporte Rodoviário 5 avenidas regionais (bairro), 2 interregionais e 1 extrarregional;

Linhas de ônibus: 64 em Bangu, 56 em Padre Miguel, 61 em Realengo e 28 em Senador Camará.

Ciclovia De pequena extensão entre os bairros de Guilherme da Silveira e Pafre Miguel.

Fonte: Anuário Estatístico da Cidade do Rio de Janeiro – 1995

Evolução urbana

Na década de 1940, Bangu é um dos bairros que mais crescem no Rio de Janeiro, devido a atração aos trabalhadores que viam seu futuro ‘espelhado’ na fábrica, e a construção de diversas outras unidades habitacionais para abrigar os trabalhadores da Fábrica Bangu e, posteriormente, diversas repartições públicas que começariam, a partir daí, a migrarem para o bairro para facilitar o intercâmbio de informações entre o poder público e a massa trabalhadora local e a disciplina da ocupação do espaço. E na década de 1950 começam a chegar e a se firmar as diversas repartições públicas ao local, como um Fórum, uma agência do Banco do Brasil, uma agência ferroviária, etc.

Em 1976 e 1977, a Imobiliária Bangu, subsidiária da Companhia, efetua o desmembramento de alguns sítios locais, para a formação de três loteamentos, a saber: o da Maravilha, o de Senador Camará e o de Minuanos, dando início a uma política de diminuição do tamanho do patrimônio da fábrica para melhor gerenciamento.

A partir daí começa, verdadeiramente a formação do bairro em sua configuração próxima do que se vê atualmente, com uma característica tipicamente residencial, mas com potencial bastante latente para o comércio e serviços, que hoje notamos serem pouco aproveitados, haja vista a falta de cinemas, parques de diversões e shoppings no local que tem uma considerável massa humana, de consumidores potenciais, que têm de se locomover para os bairros vizinhos ao oeste como Campo Grande, ou ao norte como Madureira, para poderem ter acesso aos serviços citados acima, uma vez que poderíamos tê-los aqui mesmo no bairro, se houvesse investimento.

O bairro, no seu crescimento urbano, contou também com a construção de vários conjuntos habitacionais nas décadas de 40, 70 e 80, mas destes falaremos mais abaixo, devido as características ímpares de sua construção, habitação e fomentação de violência, segregação e desestruturação do ambiente outrora pacato do bairro.

MONOCROMIA, MONOTONIA, MELANCOLIA... OS CONJUNTOS HABITACIONAIS

Numa possível planta da região de Bangu do começo século XVII, até o final do XIX, quando a Companhia Progresso Industrial do Brasil arrendou as terras da região, notaríamos que a paisagem local era dominada pelos dois grandiosos maciços que circundam o vale onde havia fazendas de cana-de-açúcar.

Em termos da urbanização, esta só veio a acontecer, em meados do século XX, via industrialização, como dissemos em capítulos anteriores, quando foi constituída a vila operária em derredor da Fábrica Bangu.

Durante muito tempo havia apenas o bairro no perímetro da fábrica de tecidos Bangu, seguindo o modelo de traçado fordista, copiado pelos ingleses e aclimatado pelos ‘Silveiras’, do que estava em voga em termos de industrialização daquele momento, com o bairro sendo como um cinturão em volta da fábrica para reduzir gastos com tempo, transportes e alimentação, ou seja, o operário ia rapidamente e à pé ao trabalho e almoçava em casa com a família, isso quando a família toda não estava na fábrica trabalhando, pois era comum e foi praxe naquela época o trabalho diuturno familiar, com as mulheres e até as crianças executando tarefas menos pesadas.

Além da vila operária havia, somente, algumas pequenas manchas de pré-urbanização, a saber: os loteamentos nas proximidades do local onde hoje se encontram a Avenida Brasil e a estrada da Água Branca e no local onde hoje se estabeleceu o Parque Leopoldina até perto de onde está a estrada Cônego de Vasconcelos, todos provenientes dos desmembramentos ou possessão de fazendas, chácaras e sítios improdutivos do local, pois os proprietários estavam especulativamente, e tão somente isso, esperando pela sua valorização imobiliária, via implantação de infra-estrutura básica pelo governo, para venderem essas terras.

Algum tempo depois, surgiram os primeiros conjuntos de apartamentos, razoavelmente amplos, em se tratando de objetivarem às classes sociais baixas, o do INPS em Padre Miguel e o do IAPI apelidado de caixa d’água entre Padre Miguel e Realengo e o Coletivo em Realengo, todos hoje em dia densamente povoados, mas em sua minoria pelos moradores originais ou pelos seus descendentes diretos, todos com marcas próprias de civilização, ou seja modificados com a construção de apêndices, as garagens, os puxados, as coberturas, as mini-lojas, para satisfazerem o modo de vida da população local, numa prova de que o homem personifica seu habitat, construindo seu espaço geográfico que se constitui das coisas, objetos naturais ou artificiais que se tornam completo com a presença do homem que lhe imprime função e forma espacial, bem exemplificado neste contexto.

Na década de setenta, foram construídos na região de Bangu, os demais conjuntos habitacionais. Com seus prédios de apartamentos ou casinhas bem estreitados, que parecem xerocópias repetitivas uns dos outros, como numa espécie de surto psicótico governamental em transformar seres humanos em passarinhos engaiolados, como no caso dos conjuntos Dom Jaime Câmara, Vila Kennedy, Jardim Bangu, etc... que foram construídos para abrigar a população das favelas em volta dos bairros nobres do Flamengo, Leblon, Copacabana, Gávea, Leme... o que não resolveu o problema da High Society da época, a hoje não tão pujante Zona Sul, pois os primeiros moradores não se agradaram do lugar e resolveram vender seus nacos de concreto, ficando apenas algumas poucas famílias, que juntas com os novos ‘repatriados’, que a seu modo, resolveram a questão da frieza do concreto, da monotonia e impessoalidade dos conjuntos, pela criatividade com que imprimiram no passar dos anos sua ‘digital’ própria, suavizando, humanizando e vitalizando frenética e desordenadamente o local.

Mas também conhecemos o lado negro destes conjuntos, quase todos com excessiva poluição visual, enfeiamento da paisagem e muitos deles têm histórias de violência para contar.

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